Vamos falar sobre sexo lésbico?

Já pensou em parar no meio de uma transa para cortar uma camisinha ou pegar um rolo de plástico filme? Se você já ouviu algumas destas sugestões, então, você deve ser uma mulher que transa com mulheres.

Se o prazer e a saúde sexual das mulheres são invisibilizados, no caso das mulheres lésbicas, isso se agrava, mas pouco se fala sobre.

Mulheres que se relacionam com mulheres, tendem a ser vistas pela sociedade heteronormativa como destituídas de sexualidade ou, pior ainda, como reprodutoras de uma performance masculina.

Lembro que quando falei pela primeira vez para um ginecologista sobre minha orientação sexual, ele disse, em tom de deboche, que sexo entre mulheres era só uma “brincadeirinha”. Pra ele, sexo “de verdade” só com homens. Esse tipo de constrangimento, infelizmente, não é um caso isolado.

Conheço mulheres que nunca foram a um médico por medo e vergonha do julgamento desses profissionais que, quase sempre, não são preparados para lidar com os próprios preconceitos sexuais.

Outra coisa preocupante, é que não há, por exemplo, informação ou métodos de prevenção às infecções sexualmente transmissíveis (IST’s) para relações entre mulheres. Algumas ginecologistas instruem as pacientes a usar plástico filme no sexo oral, dada a ignorância com relação ao sexo entre mulheres, corroborada pela ideia de que conceito de sexo sempre girou em torno do pênis. A falta de acolhimento dos médicos às questões específicas de quem pratica o sexo lésbico, fala muito da invisibilidade discriminatória por parte dos cursos de medicina que não formam médicos para nada que não seja heteronormativo.

Segundo o Dossiê Saúde das Mulheres Lésbicas: Promoção da Eqüidade e da Integralidade, pesquisa realizada por Regina Facchini e Regina Maria Barbosa, em 2006 (olha o tempo!) 89,7% das mulheres heterossexuais confirmam ter realizado exame Papanicolau nos últimos três anos, mas entre as lésbicas e mulheres bissexuais, a cobertura cai para 66,7%.

Em uma pesquisa da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, de 2012, apenas 2% das lésbicas disseram se prevenir contra IST’s. Em uma outra amostragem, feita pela Unesp, com 150 mulheres que se relacionam com mulheres, 47,3% delas tinham algum tipo de IST.

Existe um mito, reforçado por muitos médicos, de que o sexo lésbico é menos suscetível à infecções sexualmente transmissíveis e esse descaso tem a ver com a invisibilidade da sexualidade feminina agravada ao machismo, o sexismo e com a lbtfobia.

Como não existem métodos específicos para proteção sem penetração, que sejam eficazes e confortáveis, o que denota, mais uma vez, a invisibilização desse grupo, trazemos algumas dicas que ajudam a nos protegermos de uma possível infecção:

- Fazer troca de exames de saúde com a parceira. Apesar de ser um tabu, é importante essa abertura para a segurança de ambas.

- Observar se na vulva há presença de verrugas ou machucados que podem requerer atenção médica, uma vez, que são sinais claros que algo não vai bem com a saúde.

- Se decidirem utilizar algum tipo de instrumento, como vibrador ou dildo, usar camisinha e lavar o aparelho sempre que terminar de usar.

Para terminar, deixo aqui a indicação de uma leitura atual e fundamental para quem quer se aprofundar no assunto: O livro da Larissa Darc, “Vem cá: vamos conversar sobre a saúde sexual de lésbicas e bissexuais”, analisa as questões que abordamos aqui, além de ter uma linguagem acessível e agradável.

*Aviso que no texto usei o termo lésbica e sexo lésbico, o que não implica em desconsiderar outras formas de relações entre mulheres de orientações diversas (bi, pan, etc.) ou gênero (trans/não binária), mas simplesmente, uma escolha própria do meu lugar de fala. ;)

Outras fontes:

· Dossiê Saúde das Mulheres Lésbicas: Promoção da Eqüidade e da Integralidade, pesquisa realizada por Regina Facchini e Regina Maria Barbosa. Pesquisa solicitada pela Rede Feminista de Saúde, publicação pioneira no Brasil.

· Saúde sexual da mulher lésbica por Helena Bertho

· Saúde sexual para mulheres que transam com mulheres por Victoria Castro.

Dia Nobre é escritora e PHD em História. Autora do livro Todos os meus Humores (Penalux, 2020) https://dianobre.com

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