Vamos falar sobre resiliência?

Parece papo de coach vir falar sobre resiliência, mas é justamente por essa palavra estar sendo super utilizada é que ela me preocupa.

Segundo o Dicionário Michaellis, a resiliência é a capacidade de rápida adaptação ou recuperação dos indivíduos diante de mudanças, obstáculos e pressão de situações adversas. Por encontrar soluções estratégicas para enfrentar e superar as adversidades o indivíduo não entra em surto psicológico.

As pessoas tendem a ver a resiliência como algo intrinsecamente bom, mas e se não for tão bom assim?

Vivemos uma crise mundial em diversos aspectos:

- de saúde pública, por causa pandemia de #coronavirus.

- econômica por conta do desemprego;

- política diante de um governo que boicota a maior parte da população;

- racial diante do genocídio da população negra;

- emocional dada aos efeitos do isolamento na quarentena.

Em paralelo, proliferam-se os discursos de “novo normal”, “tudo vai passar”, “vamos aguentar até sair a vacina”, etc.

Photo by Cameron Raynes on Unsplash

No livro “O Fator resiliência”, Karen Reivich e Andrew Shatte identificaram 7 características presentes em pessoas mais resilientes:

1. Se manter calmo sobre pressão;

2. Controle de impulsos: não se deixar entregar pela situação e não desistir facilmente;

3. Otimismo: crença de que as coisas podem melhorar;

4. Conseguir analisar de maneira precisa as causas dos problemas;

5. Empatia: capacidade de se conectar e aprender com os outros;

6. Autoconfiança: crença de que somos capazes de resolver os problemas;

7. Coragem para se expor: capacidade para se movimentar e assumir riscos.

Mas como ter tudo isso, em um mundo que está em crise? Neste mês de #setembroamarelo me preocupa muito que conteúdos como esse que acabei de citar sejam propagados como A VERDADE, desconsiderando a subjetividade de cada um e os problemas psíquicos ou emocionais específicos.

O grande problema do uso exacerbado da palavra está no fato de que ela é posta em oposição à acomodação, ou seja, um sujeito resiliente não se acalma perante às adversidades da vida. Ele se sente impelido a lutar. O problema é que ele tem que lutar o tempo todo.

Tem um vírus matando lá fora? Aguente.

Seu patrão te obriga a ir trabalhar em um lugar insalubre? Persista.

Seu aluguel aumentou e o salário não tá dando? Não desista.

Esse otimismo me angustia profundamente. Sério. Ninguém deveria ser obrigado a “ser forte”. Existe essa ilusão de que a pessoa que não está em constante alerta ou que não está lutando por algo o tempo inteiro, está parada ou acomodada. Precisamos normalizar o não estar bem, até que voltemos a estar.

Como diz a Yasmim Narciso, “é preciso existir um limite entre ser forte, encarar as adversidades de peito aberto e aceitar ser feito de gato e sapato. Ser resiliente não pode ser sinônimo de ser feito trouxa.”

A pandemia e tudo o que ela trouxe e está trazendo, nos mostra que nem todos os nossos problemas serão resolvidos na base da persistência.

Eu tenho me dado o direito de desistir de algumas coisas que não me fazem bem e já há algum tempo não sou otimista com relação ao futuro do planeta.

E tá tudo bem.

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Dia Nobre é escritora e PHD em História. Autora do livro Todos os meus Humores (Penalux, 2020) https://dianobre.com

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