Silenciamento e resistência na escrita das mulheres

Rebecca Solnit começa seu livro “A mãe de todas as perguntas” com um ensaio sobre o silêncio. A história do silêncio, ela diz, está ligada diretamente à história das mulheres. Quando estudamos História, essa com h maiúsculo, não é difícil perceber o apagamento das mulheres, a raridade com que elas aparecem e que, quando aparecem é sempre em uma alusão ou comparação a um comportamento típico masculino.

Como ressalta Virginia Woolf, em Um teto todo seu”, parece que os homens nascem com essa capacidade de serem melhores do que as mulheres em tudo. Na cozinha, nós somos cozinheiras, eles são chef; na moda, nós somos costureiras, eles estilistas; na escrita eles são universais, nós escrevemos “literatura feminina” como se isso fosse algo menor ou mais débil.

As representações da mulher na literatura enquanto submissas, frágeis, dóceis ou no extremo, como astuciosas, ardilosas e vilãs são transferidas também às escritoras que são lidas ou não, conforme sua conduta na sociedade. O que Wollstonecraft, Malala e Cassandra Rios tem em comum? Foram censuradas por não se enquadrarem em um papel feminino previamente estabelecido pela estrutura machista em que vivemos.

No Brasil, o movimento da literatura marginal, na década de 1970 nos dá a conhecer nomes como Ana Cristina César (bissexual), Cassandra Rios (lésbica), Hilda Hilst (lit. erótica), Cora Coralina (fora do eixo Rio-São Paulo) e mostra a diversidade da produção literária feminina que fala da condição de ser mulher no mundo com toda sua complexidade. As narrativas são distintas porque tratam de experiências únicas e não-universais. O sujeito universal é chato e maçante.

No cenário educacional brasileiro, no que diz respeito ao ensino de literatura, por exemplo, temos uma lista de autores que são estudados pelos alunos do ensino fundamental e médio, dos quais, 94,8% são homens e apenas 5,2% mulheres, a saber: Rachel de Queiroz, Clarice Lispector, Cecília Meirelles e Lygia Fagundes Telles, escritoras fantásticas, sem dúvida, mas todas pertencentes a uma classe média, branca e hétero que é a norma.

.Ainda que oprimidas pelo fantasma do “anjo do lar” por causa do casamento e da maternidade compulsória, essas mulheres tiveram oportunidade de escreverem, serem publicadas e lidas. Tinham “um teto todo seu”, condições para produzir e criar.

E como a exceção só confirma a norma, a gente vê surgir uma Carolina Maria de Jesus vez ou outra, que a despeito de uma existência focada em sobreviver nos dá a conhecer uma narrativa impecável sobre o que é ser uma mulher negra em uma favela no Brasil. E por falar em Carolina, acho imprescindível, falar que as escritoras negras que são mais negligenciadas que as escritoras brancas: Maya Angelou, Toni Morrison, Alice Walker, Conceição Evaristo, mulheres que até recentemente eram desconhecidas, mas que produzem desde meados do século XX. É indiscutível, ao meu ver, que nós precisamos conhecer essas autoras que além de todo o estigma do gênero, também sofrem com a questão racial.

Se para ser feminista, como afirmam bell hooks e Djamila Ribeiro, nós precisamos ser antirracistas, afirmo que para falar de literatura feminina nós precisamos ler autoras negras. Precisamos também, ler autoras lésbicas, bissexuais, indígenas, nordestinas e nortistas. Sair do “cânone” é a resposta para encontrarmos um mundo repleto de novas experiências, modos de ver e viver o mundo, de sentir e vivenciar a existência. Ler mulheres é fazer a voz encontrar eco, ler mulheres é lutar contra o silenciamento de nossas histórias.

Dia Nobre é escritora e PHD em História. Autora do livro Todos os meus Humores (Penalux, 2020) https://dianobre.com

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