Ser produtiva. O que isso significa?

Eu sempre trabalhei em casa porque fui estudante metade da minha vida, então, isso nunca foi um problema. Quando eu estou bem, consigo me organizar.

Mesmo assim, quando a quarentena começou eu me abalei muito. Não lido bem com quebra de rotina e apesar de ser bem caseira, me deu nervoso a “proibição” de sair. Sou aquariana, gente, não lido bem com regras. No entanto, sou grupo de risco e tentei respeitar ao máximo o isolamento social.

No final de maio eu estava desesperada, minha produção tinha caído quase 100%. Foi um mês bem apático. A única coisa que eu fazia, era lavar a louça, mesmo assim, cheguei a acumular uns dois dias de louça suja, tamanha a minha impotência. Percebi que o problema não era em si, a necessidade de sair. Era mais a falta de horizonte.

Eu ficava ansiosa por “não estar fazendo nada” e comecei a me encher de compromissos, pra depois ficar ansiosa por ter muita coisa pra dar conta mesmo sem vontade. Virou uma bola de neve.

Comecei a me perguntar o que significa, pra mim, ser produtiva? É ler um livro por semana (como fiz ano passado)? Escrever 1500 palavras por dia? Gravar vídeos pro canal que abandonei? Postar no instagram?

Se você olha no dicionário, “produtividade” significa capacidade de produzir. Não fala de quantidade, nem de tempo. Então, de onde tiramos a ideia absurda de que ser produtivo é estar fazendo algo todo o tempo? Quando começamos a relacionar produtividade à quantidade?

Quando a gente fala sobre escrita, uma dica importante é deixar o texto descansar. Tirarmos a atenção dele pra que novas ideias possam vir quando o reencontrarmos. Ora, porque não fazemos o mesmo com o nosso corpo? Por que não descansamos de verdade?

Eu, honestamente, ando exausta e cheguei à conclusão de que preciso realmente me dar um tempo da tal produtividade. Não tenho respostas ou dicas… esse texto é mais um desabafo e uma tentativa de me convencer a parar um pouco, a ficar bem no ócio, a deixar que produtivo seja sinônimo de estar deitada numa rede no final da tarde, observando as cores do por do sol que pintam minha varanda.

Dia Nobre é escritora e PHD em História. Autora do livro Todos os meus Humores (Penalux, 2020) https://dianobre.com

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