Sem açúcar mas com afeto ou como dizer ‘eu te amo’

«Eu li num livro que o amor é
a coisa mais brega do mundo!»
Vou rifar meu coração, Documentário de Ana Rieper, 2012.

Nunca mais eu escrevi e, às vezes, eu penso que o dito e o vivido não tem tanto poder sobre a imaginação e tenho a impressão que o amor não correspondido inspira mais que aquele recíproco. Talvez seja mais fácil escrever quando estamos sofrendo, diriam os românticos. Suspeito que a escrita surge mais da falta de amor do que do excesso dele ou como lembra Certeau, aquilo que falta nos obriga a escrever, não cessa de se escrever em viagens em direção a um país do qual estou longe. O verbo amar deve nascer do vazio que o espera?

É difícil elaborar o amor porque ele tem a ver com completude, mas é sempre associado à falta: «o amor… este lugar confuso entre o sexo e a organização familiar…», só pra citar Caio F.

Mas pra não dizer que não falei de amor, agora que estou sendo correspondida (depois de tanta espera), tenho que dizer que é um warming feeling. É como ter os olhos fechados debaixo do sol num dia ensolarado de inverno. É quando não importam mais as estruturas de pensamento, os vícios e o passado. É acordar e perceber que tudo está diferente. É amar(iz) o sobrenome de quem você ama. É quando o dia 11 se torna o dia mais importante porque foi quando ela te pediu em namoro.

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É difícil dizer “eu te amo” pela primeira vez. Há tanto peso em uma frase tão pequena. Temos medo de sermos os únicos a carregar a bagagem. «A gente fica mordido, não fica?» A gente fica com medo de errar. Com medo de se exceder. O medo é a sombra do amor. Hapiness is a warm gun e você se sente em uma roleta russa.

Não há limites para os clichês, para o riso frouxo e para o estômago cheio de borboletas. Mais difícil é aceitar que se é amada. Dá medo, insegurança, ciúmes. Eu que já falei tanto das dificuldades de se relacionar na contemporaneidade, do amor líquido e da fragilidade das relações, ainda concordo com Baumann: o amor não tem a ver com essa ideia falaciosa de felicidade que nos é vendida cotidianamente. O amor tem a ver com esforço e cuidado. Tem a ver com o cultivo da ternura, da amizade e da sensibilidade. É preciso um mapa.
O amor não é cativeiro. «tu te tornas responsável por aquilo que cativas». Anh? Não é bem assim, Exupèry. Não sei o que é pior hoje: se a visão romântica da felicidade amorosa, importada do século XIX ou se o desespero do consumo de um amor que não sacia. A ideia da falta, da incompletude. A necessidade de encontrar no outro uma razão para viver. Então, longe de querer carregar o peso do “eu te amo”, o jogamos na outra pessoa.

Meu desafio hoje é viver um amor saudável. Sem cobranças, sem débito. Um amor recíproco, consciente de suas falhas e que tenta melhorar dia a dia. Não é fácil. Não estamos acostumados a amar de forma saudável porque o amor também vicia e haja oxitocina para dar conta de tanta carência que há no mundo. «É preciso ter pavio aceso pro lampião do coração não se apagar».

Então meu conselho é: keep healthy. Sem açúcar, mas com afeto

Dia Nobre é escritora e PHD em História. Autora do livro Todos os meus Humores (Penalux, 2020) https://dianobre.com

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