Quem tem medo de ser chamada de feminista?

Eu demorei muito até pensar minha existência enquanto mulher na sociedade e demorei mais ainda a me identificar como feminista e perceber meus lugares de privilégio e opressão.

Apesar de ter estudado uma mulher negra (a beata Maria de Araújo — tem vídeo sobre ela no meu IGTV) por boa parte da minha vida acadêmica, desassociei completamente, minha trajetória profissional do meu caminho enquanto mulher feminista. Creio que isso se deve, em parte, à falta de referências femininas que fossem decisivas à formação da minha personalidade. Tendo perdido precocemente a referência materna e vivendo com uma avó extremamente religiosa, os exemplos femininos à minha volta (até de professoras) reproduziam, em grande parte (e não por culpa delas, mas do próprio sistema patriarcal) a rivalidade, a competição e a desconfiança para com outras mulheres.

Creio que isso teve um grande impacto também, sobre minha sexualidade, forjada a partir de uma heterossexualidade compulsória que, de certa forma, me levou a assumir a bissexualidade, mas sempre com muitas ressalvas quando se tratava de relacionamentos com outras mulheres.

Levei pelo menos 30 anos para me reconhecer dentro deste sistema de opressão que me subjugou por tanto tempo. Lembro, por exemplo, de negar o machismo dentro da universidade, de questionar o comportamento das meninas, de favorecer a leitura de autores ou de procurar médicos homens por acreditar que eles eram mais competentes mesmo. Eu tinha medo de ser feminista porque feminista era uma mulher raivosa, que não se depilava e odiava os homens. Hoje, vejo como o sistema é cruel conosco, como ele nos separa, nos intriga, faz com que persigamos umas às outras, e com isso, ele cresce e fortalece a dominação masculina.

Um episódio decisivo no meu processo de mudança aconteceu em 2014 (sim, muito recentemente) quando um senhor me interpelou após minha palestra sobre a pesquisa que desenvolvi no doutorado, questionando se eu havia lido um livro sobre tema, que por acaso, era o meu próprio livro (que ele achava ser de um autOr).

Naquele dia, eu senti na pele o que é ser desacreditada e dato daí a minha decisão de ler sobre o feminismo, de estar mais atenta às formas sutis de opressão, de militar na sala de aula sobre o assunto, entendendo que o pessoal é político, sim, e não dá para separar a vida íntima da profissional, pelo menos, não quando se é mulher.

Hoje não tenho medo de me apresentar enquanto feminista, de ser chamada de feminista e de militar como feminista. Hoje eu não tenho medo de amar as mulheres e, saber que muitas delas, ainda reproduzem o pensamento do opressor, não porque querem, mas porque ainda vivem na obscuridade de pensamento que eu também já vivi. Aprendi a ser mais gentil também, pois conhecimento requer tempo e o aprendizado tem que ser constante.

Sejamos, então, feministas!

Dia Nobre é escritora e PHD em História. Autora do livro Todos os meus Humores (Penalux, 2020) https://dianobre.com

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