Os 15 anos de uma garota.

Vocês sabem o que isso representa?

Quando eu era criança, como muitas meninas pobres do interior, sonhei com uma festa de 15 anos. Até lá, no entanto, mudei de ideia e pedi de presente uma lente de contato para substituir meus óculos, o que se mostrou algo bem mais útil.

Estes dias vi fotos de uma festa bem tradicional: vestido de princesa, muito brilho, troca de roupa, entrega da boneca e um ritual que sempre achei esquisito: o pai colocando um anel na mão esquerda (simbolicamente, a do compromisso) da moça e dançando a primeira valsa com ela.

A palavra “debutante” é de origem francesa, “débutant” que significa “iniciante”. A festa marcaria a passagem da infância/adolescência para a vida adulta feminina. Historicamente, os bailes de debutantes se popularizaram na segunda metade do século XVI na Europa central, criando o hábito entre os aristocratas de apresentar as suas filhas púberes, isto é, em idade reprodutiva, à sociedade, a fim de conquistar casamentos rentáveis para as famílias envolvidas.

De modo geral, a festa de 15 anos perpetua uma representação da mulher como um objeto. Considerada como “mulher” no auge da adolescência, a garota tem seu corpo sexualizado e amadurecido precocemente. Qual garota nunca ouviu um “você é madura para sua idade”, principalmente, quando seu corpo já possui seios e quadris bem definidos?

A manutenção dessa prática que talvez nem seja feita mais com seu sentido original, na realidade, perpetua uma visão opressora sobre o corpo feminino: posse paterna que um dia passará ao marido (vide troca simbólica de alianças), e, reforça uma memória de dominação que buscamos fortemente quebrar.

Isso me fez lembrar de uma série que assisti este ano chamada One Day at Time, na qual a personagem Isabella Gomez, quinceañera, lésbica assumida, faz a entrada na festa, vestida em um terno e acompanhada pela mãe. Uma subversão maravilhosa dos papeis estabelecidos às mulheres.

Não digo que não devemos estimular nossas filhas ou sobrinhas a comemorarem seus 15 anos, digo que podemos fazer desse momento, um momento de revolução que marque nossa rejeição total à opressão patriarcal.
#mulheresqueescrevem #escrita #feminismo

Dia Nobre é escritora e PHD em História. Autora do livro Todos os meus Humores (Penalux, 2020) https://dianobre.com

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