Menina veste rosa e menino veste azul :ou nem toda nudez será castigada

O bebê nasce e já é enrolado em um pano. O médico diz o sexo, ou melhor, diz qual é o órgão genital do bebê. Afinal, uma menina pode nascer presa em um corpo masculino, e vice-versa. Se o bebê tiver pênis, ele é menino e se ele é menino, ele é incentivado a andar nu por aí, desde pequeno. Ele é incentivado a brincar com o pênis. Em alguns casos, ele é ensinado que o centro do corpo dele é o pênis. Ele brinca com os amigos, ele se estimula, ele é ensinado a se estimular e a buscar o prazer cotidianamente. Ele faz troca-troca, ele olha para outros pênis nos banheiros. Os banheiros coletivos dos meninos, por exemplo, são abertos. Não há divisórias entre os mictórios, não há divisórias entre os chuveiros.

Agora, se o bebê tem vagina, ela é uma menina e se ela é uma menina, ela é incentivada a se esconder desde cedo. Ela é incentivada a se “proteger”. Em alguns casos, ela é ensinada que a vagina só serve para fazer xixi e parir outro bebê. Ela não brinca com as amigas, ela é ensinada a ter nojo do seu corpo, a usar milhões de produtos carésimos para tirar seu próprio cheiro. Ela é ensinada que ali jaz uma flor e que ela deve manter a flor perfumada para que um dia seu namorado/marido possa se sentir bem. Ela não olha para outras meninas, a não ser para julgar-se pior: poderia ser mais bonita, ter menos mais barriga, mais peito, mais bunda… Os banheiros coletivos das meninas são fechados. Urinamos e tomamos banho em pequenas caixas que não nos deixa ver o corpo das outras, e, esconde o nosso do olhar do outro.

Mas… e tudo tem um mas. Se a mulher está pelada na tela de uma TV «no meio desse povo, a gente vai se vê na Globo (?)» não tem problema. Se ela está em uma revista chamada Playboy (tradução literal: brinquedo de menino), não tem problema. Se ela tem 10 anos e sai toda maquiada, de short curto e rebola ao som de uma música (se é que podemos chamar assim) que diz: «Essa novinha é terrorista/ É especialista/ Olha o que ela faz no baile funk com as amigas / Quando ela bate com a bunda no chão / Quando ela mexe com o bumbum no chão”, não tem problema. Se ela é violentada por 10 homens e o vídeo vaza nas redes sociais, não tem problema. Pode ejacular nela, em um ônibus lotado, em plena luz do dia, não tem problema.

Não obstante, uma menina tocar o corpo (o pé, diga-se de passagem) de um homem nu é um absurdo. Não, isso não podemos aceitar! Aí, já é demais! Então, eu vejo um comentário na internet (nunca leiam os comentários!!) de um cara (que é pai) que diz que a performance no MAM exalta a pedofilia, mas defende que as “ninfetas” representadas nos filmes pornô são aceitáveis porque fazem parte da fantasia masculina.

Como tudo se trata do controle dos corpos femininos, certos pais, cerceiam o direito de ir e vir das filhas, policiando seus corpos mas consomem pornografia estreladas por “ninfetas”. Reforçam a cultura do estupro ao assediarem mulheres nas ruas e a pedofilia ao aceitarem imagens de crianças seminuas em suas redes sociais.

O Nelson estava errado, nem toda a nudez será castigada. Só a nudez natural. A nudez sexual e violenta é exaltada cotidianamente.

Dia Nobre é escritora e PHD em História. Autora do livro Todos os meus Humores (Penalux, 2020) https://dianobre.com

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