Meu nome também é Maria

Um dia eu acordo e começo a pensar em tudo o que foi dito sobre mim. Que eu era uma embusteira, doente, filha do cão, bêbada, preta (como se por minha cor, eu já estivesse condenada), endemoniada, perversa, mal caráter, estranha. De todos esses “adjetivos” com que indiscriminadamente me chamavam, pessoas que eu nem conhecia, a bem dizer, o pior deles, creio, foi o de mentirosa. Não bastasse tomar minha vida, meu sangue, me tirar da casa de minha mãe, não bastasse me manter presa, encerrada entre quatro paredes, maltratada. Eu era, para aqueles homens brancos cristãos: MEN-TI-RO-SA.

Intervenção de Rafael Vilarouca em Icó. Fonte: Revista Cariri.

É a primeira vez, que tomo a voz de Maria de Araújo em primeira pessoa, mas a sua dor, eu a imaginei muitas vezes, debruçada entre meus livros, tentando entender a sua história. Quando enfrentava a folha branca e tentava escrever algo que pudesse capturar um pouco da essência daquela mulher.

Mantive durante mais de sete anos, a fotografia dela (a única que se conhece) na parede em frente à minha mesa de trabalho, onde quer que eu estivesse (Juazeiro, Natal, Rio, São Paulo, Roma). Ela viajou comigo e juntas trilhamos outro percurso, no qual ela se apresentava a mim, aos poucos, meio desconfiada, ainda dolorida de tanto maltrato, sua figura ainda esmaecida pelo esquecimento que lhe fora imposto. Eu que sempre tive uma relação complicada com minhas mulheres (mãe, avó, amigas e namoradas), encontrei em Maria uma companheira.

Por isso, não pude conter as lágrimas quando a vi encarnada na atuação do talentoso Rafael Moraes, no espetáculo produzido pelo Coletivo Passarinho e pela Trup Errante (Gratidão a Thom Galiano). Era bem assim que eu a imaginava: questionadora, indignada, mas ciente de seu papel naquela história, e, principalmente, da sua missão no mundo.

Maria foi mulher, atribuição por si já cheia de peso; foi negra, impossível imaginar os olhares que caiam sobre ela; foi pobre de dinheiro mas rica de espírito. Maria nunca precisou de crentes, de seguidores, de fiéis. Ela não precisa ser nomeada santa porque ela o foi em vida e nunca precisou do aval da Igreja para isso. Se há algo que me atrevo a afirmar, é que Maria queria a solidão da sua vida com Cristo: “Eu te darei um coração capaz de me amar”. Ela era muito mais eremita que mártir.

Maria é meu amor desde que a conheci em 2004. Com ela, conheci as pessoas mais fantásticas, rodamos o mundo e fomos parar no Vaticano, estamos inscritas nas páginas de revistas italianas, portuguesas e francesas, ganhamos prêmios e publicamos um livro, Incêndios da Alma, porque nossa alma é feita de fogo e de luta.

Maria já não é esquecida há muito tempo porque já está eternizada no trabalho que, agora a Trup Errante (aliás, errante como Maria e como eu) traz para o palco. Não poderia me sentir mais honrada por mais esse encontro que ela me proporcionou e por ver a minha Maria, aquela com a alma em chamas, representada no corpo terno e pulsante de Rafael.

Gratidão.

Dia Nobre é escritora e PHD em História. Autora do livro Todos os meus Humores (Penalux, 2020) https://dianobre.com

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