ou não dê palco para macho-estrelinha

Me surpreende a cada dia, como os homens não aguentam ouvir uma mulher falando sobre violência de gênero que já solta um “Ah, mas nem todo homem é assim”.

A ideia de se isentar da discussão a partir de uma exceção individual só ratifica a regra: TODO HOMEM SIM. E aqui eu não me refiro a UM indivíduo, especificamente, mas à uma sociedade machista e patriarcal que se funda na opressão sobre o gênero feminino e no controle dos corpos das mulheres. Me refiro à violência de gênero enquanto fenômeno social, que nos faz, por exemplo, ter uma figura típica específica como o feminicídio e leis específicas para proteger mulheres como a Lei Maria da Penha.

Outra coisa que me dá nos nervos é um homem que tem necessidade de se declarar antimachista ou feminista, o chamado, esquerdomacho. Esse indivíduo quer, proposital ou inconscientemente, se destacar da generalização de que todo homem é machista e acha que nós mulheres, deveríamos andar com uma estrela dourada para entregar a eles quando eles fazem ou dizem algo pró-feminismo, quando na realidade, eles não fazem mais do que a obrigação ao refletir sobre a opressão que reproduzem cotidianamente.

Pros machos-estrelinha, é quase uma necessidade estar se afirmando feminista ou esquerdista, mas quando eles se deparam com situações escrotas pelas quais as mulheres passam, ou escutam uma mulher reclamar da violência que sofreram, seja ela física ou simbólica, eles só sabem dizer o mantra “mas nem todo homem”. Uma atitude muito mais legal da parte do macho-estrelinha seria se solidarizar com a vítima da violência. Um “sinto muito que você passou por isso”, ajudaria muito mais do que a defesa da sua isenção ou do seu suposto antimachismo.

Por último, afirmo que falta aos homens uma capacidade básica, exigida das mulheres ao longo dos últimos milênios que é a de escutar. Ouvir o que a mulher tem a dizer e não ficar se defendendo o tempo todo, ou o que é pior, tentar ensinar às mulheres sobre o que é ser mulher. Acredite, nós sabemos. Vivemos isso na pele todos os dias.

Ser mulher não é só ter uma vagina. É sofrer a pressão da maternidade compulsória, dos padrões de consumo e beleza, é sair de casa e não saber se volta, é entrar em um lugar e verificar todas as saídas de emergência, é entrar em um uber e ligar pra alguém ou fingir que está falando no telefone pro motorista parar de lhe assediar, é ser considerada culpada mesmo quando se é a vítima de uma violência. É difícil pra caramba e eu afirmo que não há homem no mundo que aguentaria um dia na pele de uma mulher. Mas parece que, nem todo homem, né?!

Photo by chloe s. on Unsplash

Dia Nobre é escritora e PHD em História. Autora do livro Todos os meus Humores (Penalux, 2020) https://dianobre.com

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store