Marielle Franco, presente!

Eu gostaria de não ter vergonha. Gostaria de ser sem vergonha. Gostaria de ser ignorante. Então eu não saberia o quanto era ignorante.

-Margaret Atwood, O conto da Aia.

uatro tiros na cabeça. Quatro tiros na cabeça. Quatro tiros na cabeça. Qua-tro ti-ros na ca-be-ça.

O primeiro tiro me deixa atônita. O segundo tiro <eu ouço com o coração batendo de horror>. No terceiro, <minha boca está trêmula>. O quarto tiro <me assassina — porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro>.*

A notícia da morte de Marielle Franco me acordou em 15 de março de 2018 como uma bala perdida ecoando no espaço. Sem direção. Chorei. E antes que esse mundo sem empatia me pergunte: não, eu não a conhecia pessoalmente. Mas a sua morte dói em mim como se fosse a minha própria morte. Como historiadora que assiste, em parte estarrecida, em parte revoltada, o teatro de horrores que estamos vivendo desde 2015, não consigo deixar de senti-la.

Mulheres vêm sendo atacadas repetidamente desde sempre, mas a misoginia desse país branco-cristão-heteronormativo sem dúvida têm se aprofundado. Já estamos no fundo do poço há muito tempo. Vivemos no país que está na quinta posição no ranking de feminicídios no mundo. Vivemos no país onde a cada 11 minutos uma mulher é estuprada. Cerca de 70% das vítimas de estupro são crianças e adolescentes. A cada 7.2 segundos uma mulher é vítima DE VIOLÊNCIA FÍSICA. Em 2013, 13 mulheres morreram todos os dias vítimas de feminicídio, isto é, assassinato em função de seu gênero. O assassinato de mulheres negras aumentou 54% nos últimos três anos. <A carne mais barata do mercado é a carne negra>.

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Vemos os direitos das mulheres serem questionados todos os dias. O atual presidente da República já disse expressamente que mulheres deveriam ganhar menos por engravidarem. A bancada evangélica que infesta o Senado e a Câmara é contrária ao aborto em “nome de Deus e da família”. Aliás, em nome de Deus tiraram do poder uma mulher honesta e dedicada ao seu país, a presidenta Dilma Roussef. Em nome de Deus, os atos mais vis são cometidos diariamente.

Como no livro O conto da Aia, de Margaret Atwood, as mulheres têm sido paulatinamente reduzidas a propriedade do estado, como já acontece no Irã e em outros países da África e do Oriente Médio. O assassinato/execução de Marielle deve servir para nos lembrar que devemos estar atentas e permanecer lutando, pois eles tentarão nos calar. Quanta violência é necessária para destruir uma mulher? Quantas mulheres vão morrer antes que percebamos que eles nos matam porque têm medo de nós?

*Paráfrase do texto “Mineirinho” de Clarice Lispector.

Dia Nobre é escritora e PHD em História. Autora do livro Todos os meus Humores (Penalux, 2020) https://dianobre.com

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