Liberdade também é poder dizer não

Li esta semana, o artigo da @tatibernardi na @folhadespaulo e ao meu ver, ele tem muitos problemas. Primeiro, por esse apelo para os jovens transarem quando os jovens já transam e isso não é novidade nenhuma. Eu entendi que a ideia era fazer oposição ao programa “Eu escolhi esperar” da ministra Damares, o qual eu sou totalmente crítica também, mas na minha opinião, o texto não chega ao ponto central da discussão que é a falta de políticas públicas de educação sexual, principalmente, nos bairros periféricos do país, que é onde estão o maior número de adolescentes grávidas, por exemplo.

Fica claro que com essa proposta, o governo não está nenhum pouco preocupado em controlar os índices de gravidez na adolescência, muito menos, a transmissão de Dst’s, mas, simplesmente executar um projeto de CONTROLE dos corpos, principalmente, dos corpos femininos (Bem-vindos à Gilead). Os jovens não deixarão de transar por conta desse programa, mas me incomoda a ideia de que eles só transem para “estar na moda” ou como um ato de rebeldia (sem causa).

Falando, especificamente, do público feminino. Segundo uma pesquisa feita pela Mariana Stock (Marie Claire, 2018) do @prazerela, somente 36% das mulheres heterossexuais afirmaram ter orgasmos em suas relações, e destas, somente 16% tiveram orgasmos com penetração. Com relação às mulheres lésbicas e bissexuais, esse número sobe para 88% e 66%, respectivamente, segundo uma pesquisa do Archives of Sexual Behavior (2018). Qual o ponto disso? O ponto é justamente, que não adianta sair fazendo sexo por aí se você não conhece seu corpo, se não sabe o que te dá prazer (temos que incentivar a masturbação feminina!), e, principalmente, se não sabe se proteger de doenças ou de uma gravidez indesejada.

Eu, particularmente, sou da opinião que todo mundo deve transar com quem quiser, quando quiser, como quiser, mas uma educação sexual é urgente e necessária. E não só: tem que ser uma educação sexual que abarque as classes menos favorecidas, porque é muito fácil falar do lugar da classe média intelectual que já tem acesso a isso. Juro que se eu me conhecesse como me conheço hoje, não teria transado com metade das pessoas com quem transei. Teria poupado meu corpo de pílulas do dia seguinte, de exames desesperados de gravidez e DST’s e, provavelmente, teria tido mais orgasmos.

Na segunda temporada da série Sex Education (Netflix, 2020) a gente vê como a falta de informação é perigosa. A temporada começa com um surto de candidíase, uma doença super comum e simples, que se alastra por falta de informação, e, principalmente, de COMUNICAÇÃO entre os parceiros. Aí, vem outro detalhe do texto da Bernardi, ela praticamente disse que após os 30, as mulheres não transam mais, por cansaço, falta de vontade ou por doenças e que um dos ápices da vida adulta é ter filhos (whaaattt?). Como uma mulher na faixa dos 30 e casada, tenho que dizer que a falta de sexo em um casamento se deve muito mais à falta de química, tesão e paixão do casal do que propriamente pela idade ou os inconvenientes que ela traz. Se você não transa no seu casamento, tem alguma coisa errada aí but isso é assunto para outro texto.

Voltando ao tema: eu não vejo nenhum problema uma jovem esperar o momento certo para ter uma relação sexual, SE ela faz isso porque tem consciência dos limites do seu corpo, SE ela tem acesso à informação, em suma SE ela faz isso com consciência. Também não vejo nenhum problema, em não desejar fazer sexo de jeito nenhum. É isso gente, assexuados existem, superem! Ainda em Sex Education, vemos o caso de uma menina que se sente pressionada por seus colegas a transar, pois ela seria a única virgem do grupo, e ela se sente super mal com isso, pois, simplesmente, não tem vontade de ter esse tipo de contato físico e eu acho super válido a pessoa respeitar seu desejo e ter a liberdade de dizer que não.

O sexo é um ato que deve proporcionar prazer e não paranoias e desconforto. Transar com alguém com quem você tem intimidade é muito mais gratificante do que fazer sexo com muitas pessoas só para ser aceito em um grupo de amigos, pra ser moderninho ou mesmo, pra contradizer a ministra. Demonizar a mulher que não quer transar, só ratifica que o modelo patriarcal capitalista deu certo: em um mundo, no qual, o corpo feminino é objeto, o machismo só quer nos usar. O sexo também foi capitalizado.

A melhor memória que podemos ter ao chegar na velhice não é de ser uma “pessoa que passou o rodo”, nem do número de pessoas com as quais nos envolvemos, mas dos orgasmos que tivemos, e, principalmente, de no dia seguinte, estarmos tranquilos, sem medo de gravidez ou de doenças. O melhor futuro que você pode construir como mulher, é aquele onde ter liberdade é também poder dizer não.

Desenho da @laysealmadaart

Dia Nobre é escritora e PHD em História. Autora do livro Todos os meus Humores (Penalux, 2020) https://dianobre.com

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