Juliette Freire e a Xenofobia contra nordestinos

É certo que esta edição do BBB detonou vários gatilhos em muita gente. Em apenas duas semanas, tivemos um show de horrores:
- do abuso psicológico ao assédio sexual (pior, cometido por uma mulher);
- da destilação de ódio contra pessoas que sofrem de transtornos de ansiedade;
- da intolerância religiosa;
- da bifobia;

Para mim, mulher nordestina, lésbica, que sofre com transtorno de ansiedade e BPD, foi impossível não me sentir extremamente violentada pelo que vem acontecendo dentro da casa mais vigiada do Brasil. Alô @redeglobo, parabéns, só que não.

Mas hoje eu queria falar mesmo sobre a xenofobia que a @juliette.freire vem enfrentando dentro da casa desde sua entrada. A mesma violência que sofremos e que se acirra em época de eleição e que sempre coloca o Nordeste em oposição à uma ideia de Brasil centrada no eixo Sul-Sudeste.

Essa violência é extremamente elástica e pode se revelar de várias formas:

- xingamentos e generalizações culturais: “baiano é tudo preguiçoso”;
- disfarçada de admiração e simpatia:“que sotaque lindo você tem”;
- do apagamento: “o Acre existe?”;
- da infantilização do indivíduo: “fulana é doidinha e avoada”, como vi uma escritora paulistana se referir à Juliette em um tweet recente.

O Sul/Sudeste “civilizado” e “reservado” se orgulha tanto de sua ascendência europeia (ainda que feita de europeus pobres que vieram trabalhar como mão-de-obra barata) e não percebe que estamos todos no mesmo fundo do poço com esse governo que está posto.

A ignorância é tanta, que certa revista teve como capa, mês passado, a manchete: “São Paulo: capital do Nordeste” porque se por um lado, reconhece que o estado paulistano se fez com a mão-de-obra nordestina, por outro quer se apropriar da nossa cultura que é diversa e diferente nos nove estados. Cada um com sua geografia, clima, sotaque, comidas, músicas e tradições culturais.

Fiquei pensando o quanto valia a pena falar sobre isso, mas o incômodo que tenho sentido é grande demais pra ficar dentro de mim. Aos navegantes intelectuais que acham perda de tempo falar sobre o BBB, afirmo que esse programa revela muito sobre nossa sociedade, tanto da parte de quem está dentro, quanto de quem está fora.

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Foto: Instagram @juliette.freire

Dia Nobre é escritora e PHD em História. Autora do livro Todos os meus Humores (Penalux, 2020) https://dianobre.com

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