O Instagram é o universo paralelo no qual criamos nossa persona. É um mundo mágico onde escolhemos ser felizes, bonitos, realizados; onde decidimos que nosso amor-próprio vale mais, que esperar a mensagem do crush não vale a pena e que a fila anda se ele/ela não andar; onde ostentamos nossas viagens, nossos “recebidos”, nossos tesouros preciosos, expostos em um frame 4x4 com uma variada opção de filtros. O recorte está posto.

O ponto é que não sabemos o que se passa atrás da moldura colorida desse outro-verso. Para qual lado pende a face da moeda que me representa?

Eu vejo muita gente “especialista”, psicólogos, blogueirinhos e coachs (not today, satan!) falando sobre aceitação, auto estima, depressão, ansiedade… mas vocês sabem o que TER depressão?

Notem o uso do verbo: TER. Uma pessoa com depressão não “está” com depressão. Ela TEM depressão. É algo inerente a ela.

Eu tenho depressão como eu tenho olhos castanhos e olheiras bem marcadas embaixo deles. Eu tenho depressão como tenho miopia e preciso de óculos. Como eu tenho cabelos cacheados castanhos e uma cabeça que não para de pensar um só segundo. Eu tenho depressão como eu tenho duas mãos, dois braços, duas pernas. Como eu tenho peitos, barriga e bunda. Como eu tenho um coração que pulsa e bate e sofre e geme. Como eu tenho língua e paladar, e bochechas e dentes. A depressão está em mim como as unhas que cobrem os meus dedos, como a pele que recobre o meu corpo, como os pêlos e suas raízes profundas cravadas na camada espinhosa da minha epiderme; como o sangue que percorre minhas veias, como a bile em meu estômago que eu expulso quando vomito mas que se recria dentro de mim.

Não é algo que eu escolhi ter, eu nasci assim. Não é uma tristeza provocada pelo fim de um relacionamento, não é uma ansiedade por uma viagem que vou fazer ou por um projeto que deu errado. Não é simples. Não é drama. Não vai passar só porque você está pedindo. Eu quero chamar sua atenção mas não pelos motivos que você pensa. Eu quero chamar sua atenção para a vida que se esvai de mim como areia de praia entre as mãos de uma criança.

É uma dor tão, mas tão, inexplicável que eu nem sei como pôr em palavras. Não há linguagem para descrever a experiência de uma crise de depressão. É como se o chão se abrisse e engolisse tudo o que está à volta. É como se todas as pessoas que você amasse morressem, todas ao mesmo tempo, e você se visse sozinho no universo silencioso. É como gritar e não conseguir que a voz ecoe. É como cair de um voo em um sonho.

E, às vezes, por alguns momentos, horas ou dias, muito raramente, semanas; nunca meses, infelizmente; às vezes, eu consigo ‘controlar’ minha crise, minha… você sabe… depressão.

Assim como eu controlo a cor com a qual vou pintar minhas unhas, como eu controlo o corte do meu cabelo e a cor das minhas lentes de contato; como eu controlo a luz da minha pele com um iluminador e a cor da minha boca com um batom vermelho; como eu controlo o meu peso e minhas medidas; como eu controlo minha aparência em uma selfie só levantando o queixo e girando a cabeça levemente para o lado… mas, ali em um canto, não tão profundo, ela está latente, porque está em mim, faz parte de mim, nos temos mutuamente.

Então, não julgue alguém que escolhe se expor no Instagram. Às vezes, ela só está querendo chamar a atenção para esconder a depressão, com uma camada densa de maquiagem, assim como… você sabe… como a gente esconde as olheiras de uma noite insone como essa.

Dia Nobre é escritora e PHD em História. Autora do livro Todos os meus Humores (Penalux, 2020) https://dianobre.com

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