Recebi no meu Whatsapp uma notícia de seleção de histórias pela cineasta Ana Muylaert, diretora do filme Que horas ela volta?, buscando histórias reais de meninas que acessaram o ensino superior através dos programas de acesso que transformaram as universidades brasileiras na última década para a realização do documentário JÉSSICAS.

A pesquisa era antiga, de agosto de 2018, e, eles já encerraram o recebimento de histórias. Mesmo assim, eu tive vontade de escrever a minha e a dedico aos meus alunos porque essa é uma história que não cala no meu peito desde que a Dilma sofreu o impeachment em 2016.

Naquele momento, diante do estapafúrdio de fake News, de correntes machistas e preconceituosas, da xenofobia que reverberava nas redes sociais, eu entrei em uma depressão profunda. Me doía demasiado ver o que estava acontecendo com as nossas tão recentes conquistas, das quais eu fui super beneficiada.

Meu caminho começou justamente em 2003, quando fui aprovada no curso de História da Universidade Regional do Cariri. Eu tinha 19 anos. Havia terminado o Ensino Médio em 2000, aos 16, mas devido à situação financeira da minha família tive que começar a trabalhar e não pude entrar logo na universidade. Meu pai deixou de receber o bolsa família devido à minha saída da escola e, naquele momento, ele estava desempregado. Depois ele conseguiu um emprego como vendedor em uma farmácia, mas não era o suficiente para sustentar três filhos.

Eu trabalhava em turno integral e à noite chegava extremamente cansada em casa. Em 2002, uma colega de trabalho me incentivou a fazer a prova do Enem (naquela época, não havia Sisu e o Enem não ajudava muito porque na minha região nenhuma universidade o aceitava ainda). Eu fiz e tirei uma nota bastante boa, considerando que estava há dois anos sem estudar. Então no final do ano resolvi prestar o vestibular. Passei em 7º lugar.

No ano seguinte iniciei o curso noturno de História. Trabalhava das 8hs às 18hs e ia para a Universidade que ficava em outra cidade. Chegava em casa todos os dias por volta das 23h30. Inicialmente, meu desempenho não foi tão bom, pois eu estava sempre cansada e não conseguia estudar durante o dia, mas ainda assim, me apaixonei pelo curso e senti que ali eu poderia encontrar uma chance na vida.

No final de 2004, uma professora me ofereceu uma bolsa de pesquisa (Iniciação Científica, como chamamos). Eu já sabia que queria ser pesquisadora/professora universitária e resolvi largar o emprego. Foi uma das decisões mais difíceis da minha vida, pois no trabalho eu ganhava o salário mínimo (na época R$300,00), mais vale alimentação, plano de saúde e comissão e troquei tudo isso por uma bolsa de R$150,00.

Foi a melhor decisão da minha vida.

Investi no curso mesmo com todas as dificuldades, e, em 2007 eu fui aprovada no Mestrado em História da UFRN. Tive auxílio alimentação, assistência social e bolsa de pesquisa da CAPES durante todo o período. Minha dissertação foi indicada para publicação e antes de concluir o curso já estava aprovada no doutorado em História da UFRJ, o qual comecei em 2010. Foi difícil sobreviver no Rio de Janeiro mas não podia reclamar, pois a bolsa de pesquisa (também da Capes) me manteve.

Fiz doutorado sanduíche na Itália e em 2014 defendi a Tese de doutorado sobre a beata Maria de Araújo, uma mulher negra e pobre que viveu no final do século XIX e que sofreu um apagamento historiográfico e social. Pesquisei nos Arquivos do Vaticano e apresentei fontes inéditas. Nesse meio tempo já sabia falar inglês, italiano e francês, pois a bolsa me proporcionou pagar por esses cursos. Minha tese foi premiada com o Prêmio Nacional de Teses da Capes e com mais dois outros prêmios cariocas. Quando soube da premiação, eu estava arrumando minhas malas para ir morar em Petrolina, pois tinha sido aprovada no concurso para a cadeira de Teoria da História da Universidade do Pernambuco. Neste ano, 2019, estou afastada para o pós-doutorado que farei na Universidade Federal do Maranhão, também com bolsa da CAPES.

Eu poderia dizer que tudo o que aconteceu se deveu ao meu esforço e perseverança e é óbvio que esse é um dos fatores primordiais. No entanto, nenhum esforço seria o bastante se eu não estivesse “no lugar certo, na hora certa”, se eu não tivesse aproveitado as oportunidades que as políticas públicas do governo Lula e Dilma me proporcionaram. Eu nasci uma menina pobre, do interior do Ceará, sem muita perspectiva, a não ser casar, ter filhos, trabalhar no comércio (não desmerecendo quem o faz, pois é uma forma digna de se viver), não ter feito faculdade, como meu pai, por exemplo, que até hoje ganha um salário mínimo. Mas eu me tornei uma mulher doutora, de classe média, professora universitária no sertão do Pernambuco, depois de já ter rodado meio mundo e ter tido experiências que nunca imaginaria ter.

Meus sonhos saíram da imaginação graças ao incentivo à educação e ao desenvolvimento tecnológico dos últimos anos. Eu sou uma Jéssica. Sou filha do Lula e da Dilma. Sou alguém que aprendeu a pensar, que construiu uma trajetória impossível de ser construída naquelas condições. Não me venha falar de meritocracia, pois meu sobrenome é LUTA.

Dia Nobre é escritora e PHD em História. Autora do livro Todos os meus Humores (Penalux, 2020) https://dianobre.com

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