Eu quero ser lida, mas não só depois de morta

Macabea precisou morrer pra virar uma estrela.

Quantas mulheres não tiveram que morrer para serem notadas? Até existir é difícil quando se é mulher, e, eu poderia aplicar isso à vários temas, mas hoje vou falar sobre a escrita.

Comecei a minha vida de leitura/escrita muito cedo. Vindo de uma família pobre do interior do Ceará, me considero sortuda de ter encontrado quem me estimulasse a ler e escrever.

Li muito na adolescência, mas poucas mulheres. As bibliotecas sempre foram cheias de obras de homens. Os livros escritos por mulheres apareciam tímidos em poucas prateleiras. Lembro de ler com avidez as obras de Ana Cristina César, Clarice Lispector, Cecília Meireles, Agatha Christie… Li mais Anne Rice que Stephen King e o ponto aqui não é sobre o que é bom/ruim, mas sobre representatividade.

Para mim, só podia se dar ao luxo de ser escritora quem tivesse nascido em família rica e não tivesse mais nada pra fazer na vida. Só high society e eu, pobre de mim, era tão low que nem sei.

Vocês podem notar inclusive, que na lista acima não tem nenhuma escritora negra, indígena ou nordestina, LBT então, só a Ana C. que era bissexual e salvava a minha existência.

Agora, isso era nos anos 1990. Cá estamos três décadas depois, com mais conexão que antes, mais diversidade, mais visibilidade, mais mulheres produzindo, escrevendo, colocando a cara pra bater em concursos, sendo perseguidas por sua escrita, e, me pergunto, como anda a leitura das obras escritas/produzidas/editadas por mulheres?

Macabea precisou morrer pra virar uma estrela. E também: Cassandra Rios, Orides Fontella, Carolina Maria de Jesus, Maria Firmina dos Santos, Beatriz Nascimento, Lélia Gonzalez… a lista é imensa.

Eu quero ser lida. E não só depois de morta. Eu também quero ler minhas companheiras contemporâneas e seus livros lindos que estão aí povoando o mundo.

Eu quero compartilhar experiências e técnicas, quero estar em suas estantes e tê-las aqui perto de mim.

Meu desejo pra 2021 é esse: Vamos nos ler.

Photo by Lacie Slezak on Unsplash

Dia Nobre é escritora e PHD em História. Autora do livro Todos os meus Humores (Penalux, 2020) https://dianobre.com

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store