Estrangeira na casa do meu pai

O Cariri é descrito na obra de memorialistas e historiadores como um oásis no sertão. A Chapada do Araripe abraça o Vale como uma mãe abraça seu filho e o transforma nesse lugar mítico. Esse discurso foi incorporado às identidades de homens e mulheres que ali nasceram ou por algum motivo, ali chegaram, afinal «quem bebe da água do Cariri não vai mais embora». Água encantada. Nesse encantamento, o estrangeiro se torna nativo, o nativo que foi embora é torturado pelas saudades e sempre volta.

Desde muito tempo, escuto esses relatos apaixonados sobre a terra onde nasci há 30 ou «há dez mil anos atrás», já não importa, embora eu saiba pouca coisa sobre o mundo, ao contrário de Raul. A verdade é que sempre me senti estrangeira no Cariri.

Julia Kristeva diz que o estrangeiro é a face oculta de nossa identidade, rebelde aos vínculos e às comunidades, e eu nunca pude assumir essa identidade que me era apresentada e, por vezes, cobrada. Nunca fui afetada (no sentido de desenvolver afeto) pelas romarias, reisados e bandas cabaçais, e, apesar de ter estudado tantos anos sobre a vida da beata Maria de Araújo, me interessava muito mais a trama da mística feminina do que o lugar. Acho bonito, mas para ser é preciso mais que achar. Como Saramago, eu pertenço a tudo e não caibo em lugar nenhum.

Minha impressão sempre que retorno, é que o Cariri não muda e nunca mudará, sendo mar ou sertão. E a mudança é a minha rotina. Fera ferida, desde criança sentia um desejo incontrolável de correr o mundo, pois o Vale era selva bravia e os braços da Chapada me sufocavam. Precisava ver o horizonte, muralhas me inquietam. Me tornei gypsy e «já morei em tanta casa que nem me lembro mais». De Juazeiro à Roma, todos os caminhos me levaram a não querer mais voltar. O destino é o nome que damos aos desejos do nosso inconsciente, dizia Jung.

Admiro quem tem o sentimento de pertencimento, mas não invejo. Não sou a baleia encantada que mora debaixo da Sé cratense e para me prender não há altar que chegue. Meu reflexo não cabe nos espelhos da roupa do Mateus e essa música que mistura ladainhas, espadas e flautas não me cativa. Meus ouvidos estranham esse mundo barulhento. É um mundo bonito, não nego. Nem o renego, porém, não busco (minha) origem. Tampouco o destino. O que eu quero mesmo é a estrada.

O Cariri para mim não é nostalgia. Saudade? Saudade eu tenho de gente, da minha avó que já se foi, da minha família, dos amigos que deixei lá. Eles moram no Cariri, mas vivem no meu coração. E, afinal, existe lugar mais importante que o coração de alguém?

Edianne Nobre

Petrolina, 30 de agosto de 2017.

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Arquivo pessoal. Santana do Cariri, 2011.

Dia Nobre é escritora e PHD em História. Autora do livro Todos os meus Humores (Penalux, 2020) https://dianobre.com

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