Efeito Matilda e o estigma da mulher barraqueira

Semana passada, falei sobre uma experiência desagradável que tive no Instagram, quando um rapaz usou uma imagem do meu livro na sua página de miscelâneas e se recusou a dar os créditos completos do meu trabalho, enquanto que nos posts nos quais os autores eram homens, ele referenciava a origem da obra.

Recebi um feedback imenso, principalmente, de mulheres, contando que o mesmo já havia acontecido com elas e me inquietou como essa prática, parece ser naturalizada. Muitas mulheres responderam algo como: “já fizeram isso comigo, mas deixei pra lá” ou “toda semana meu rosto e meus textos estão em um lugar diferente” e todas disseram que não valia a pena contestar.

Fiquei pensando porquê fazemos isso. Por que “deixamos pra lá”? Quantos homens vocês conhecem que deixaram pra lá? Às vezes, o medo de ser vista como barraqueira ou arrogante parece se sobressair e voltamos àquela postura passiva da mulher-que-aguenta-tudo pra não chatear o outro, pra não desagradar.

Entendo que cada um sabe o tamanho do fardo que pode carregar e assumo que há um custo emocional enorme quando brigamos por algo, mas definitivamente, é algo que não posso mais “deixar pra lá”.

Em uma pesquisa rápida no Google, a gente descobre uma quantidade considerável de mulheres que tiveram seus trabalhos apropriados e roubados por homens (e também por outras mulheres). São tantos, que existe, inclusive, um conceito para isso: Efeito Matilda.

Matilda Joslyn Gage — Domínio Público

A expressão foi criada em 1993 por Margaret W. Rossiter que pesquisou casos em que trabalhos realizados por mulheres foram atribuídos a homens e casos em que a participação das mulheres foi diminuída.

O termo homenageia a sufragista Matilda Joslyn Gage, escritora do ensaio “Woman as an Inventor” (A mulher enquanto inventora), publicado em 1883, no qual a autora enumera as contribuições das mulheres à ciência e à arte.

A história das mulheres sofreu um processo de apagamento histórico irreparável, mas nós estamos aqui, hoje, para reconstruir e criar novas histórias e eu, enquanto mulher, historiadora, artista, escritora, me recuso a deixar pra lá.

Para saber mais:

Dia Nobre é escritora e PHD em História. Autora do livro Todos os meus Humores (Penalux, 2020) https://dianobre.com

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