Como eu lido com a síndrome da impostora?

Você já teve a sensação de não se sentir competente para desempenhar uma tarefa para a qual você se preparou?

Quando eu estava no doutorado, tive uma crise de ansiedade que me fez mandar um e-mail para minha orientadora e dizer que ia desistir do curso. Eu estava no segundo ano, prestes a qualificar a tese, sem ter escrito uma página, ou melhor, achando ruim tudo o que eu escrevia.

Naquele momento, eu duvidei que podia escrever sobre algo que eu estudava a fundo há, pelo menos, sete anos. Ainda bem que minha orientadora pôs minha cabeça no lugar e eu consegui não só qualificar, como, depois de pronta, a tese ganhou o Prêmio Capes de Teses de 2015 e mais dois prêmios nacionais.

Por que eu conto essa história?

A síndrome da impostora não é realmente uma “síndrome” no sentido lato do termo. Não há dados científicos que mostrem que ela é uma patologia. No entanto, ela é um fenômeno que desencadeia sintomas psicológicos intensos que afetam a autoestima, pois se refere ao sentimento de que “em algum momento, vão descobrir que eu sou uma fraude”.

O termo surgiu na década de 1978 com um estudo feito por duas psicólogas, Pauline Clance e Suzanne Imes, que entrevistaram cerca de 150 mulheres bem sucedidas profissionalmente, brancas, de classe média e alta. (Veja o texto original aqui)

Pauline e Suzanne constataram que os homens imputam seu sucesso à atributos pessoais como inteligência, esperteza ou habilidades específicas, enquanto as mulheres sentiam que ocupavam cargos de poder por “pura sorte” ou “por erro de alguém”, ou seja, elas não se sentiam merecedoras de suas posições mesmo trabalhando mais horas e mais intensamente que seus companheiros.

Histórica e socialmente, a síndrome afeta as mulheres de forma mais grave, por isso, eu uso o termo no feminino (no original, em inglês, não tem gênero: Impostor Phenomenon). Além disso, é importante notar que hoje, a Síndrome da Impostora, afeta de modo muito mais contundente as mulheres negras e àquelas pertencentes aos estratos mais pobres da sociedade.

Esses são alguns sintomas que indicam que você pode estar sofrendo com isso:

- esforço exagerado: não é só o esforço que você coloca numa tarefa, mas a obsessão em concretizá-la e por mostrar resultados ou agradar os outros.

- autodepreciação: que tem a ver com a autocobrança e a não valorização das conquistas;

- medo da exposição: você tem vergonha de mostrar seu trabalho com medo do que os outros vão achar.

-procrastinação: adia as tarefas e compromissos como forma de encontrar uma justificativa para um possível fracasso;

-constante comparação com os outros;

- autossabotagem enxerga o fracasso como algo inevitável e começa a agir de forma a minar suas próprias conquistas.

Ainda hoje eu sofro com alguns desses sintomas e em alguns dias queria ser uma avestruz para enfiar minha cara em um buraco e nunca mais aparecer, mas sei que esse é um mecanismo de defesa. Às vezes, não lido bem com elogios, sou insegura com o que escrevo e tenho um sentimento enorme de vazio e de falta de propósito. A gente se sabota, principalmente, porque vivemos em uma sociedade machista que diz o tempo todo que não somos capazes e que, por muito tempo, limitaram nosso acesso à educação.

Precisamos estar atentas aos sinais. Fazer terapia tem me ajudado muito no processo de reconhecer meu próprio valor e a entender que o olhar do outro só tem o peso que eu mesma dou. Evito me comparar a outras pessoas e quando percebo que estou fazendo isso, coloco um freio nos pensamentos. Tento listar tudo o que fiz na vida que considero “bom” e dar valor a pequenas coisas. São desafios diários, mas estamos aqui pra tentar, errar e, claro, acertar.

Esse texto fez sentido pra você? Se sim, salva pra ler sempre e compartilha com as amigas.

Outros textos sobre o assunto:

https://janelasabertas.com/2020/05/07/sindrome-da-impostora/

https://medium.com/creditas-tech/eu-eu-mesma-e-a-s%C3%ADndrome-do-impostor-790625269e6e

https://medium.com/@maiakelly/quem-te-protege-do-medo-de-falhar-70c41ca453f9

Dia Nobre é escritora e PHD em História. Autora do livro Todos os meus Humores (Penalux, 2020) https://dianobre.com

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store