Carência, amor próprio e clichês

Eu tenho muitas amigas heterossexuais que se destacam por seu trabalho, por sua inteligência, por sua capacidade de pensar o mundo e de fazer coisas para melhorá-lo, e, vejo que muitas delas, a maioria, estão acompanhadas de homens que não lhe dão o menor valor, que as exploram sexual e financeiramente, que não as respeitam intelectualmente.

Me pergunto, o que fazem essas mulheres maravilhosas continuarem nesses relacionamentos ou reforçarem essa ideia?

Uma amiga minha, teve depressão e procurou um terapeuta pra iniciar seu processo de análise e, adivinhem, qual foi a primeira coisa que o psicólogo perguntou: “por que ela não conseguia manter relacionamentos?” Automaticamente, a culpa era dela.

Muitas mulheres que trabalham fora do ambiente doméstico, que conseguiram se estabelecer profissionalmente, que possuem independência financeira, são vistas como inamoráveis.

Eu mesma, em um momento da vida, pensei que ia morrer solteira porque tinha essa ideia de que como minhas escolhas foram na contramão do patriarcado — não sou hétero, não quero ser mãe, odeio serviço doméstico -, eu nunca encontraria ninguém que quisesse manter um relacionamento comigo. Claro, que essa uma ideia reforçada pela heterossexualidade/maternidade compulsória.

Parece até clichê falar sobre isso, mas como vivemos em um tempo no qual dizer o óbvio é regra, reforço que o amor não pode ser confundido com a carência. Sim, há um limite bem tênue e, às vezes, é difícil distinguir, mas é importante tentar. E eu sei que não é fácil.

Não é fácil amar nosso corpo quando existem centenas de revistas dizendo como deve ser o corpo perfeito. Não é fácil amar nossa idade, quando dizem por aí que se você chegou solteira aos 30, você fracassou. Não é fácil amar nossa liberdade quando somos alvo fácil da violência masculina. Não é fácil, mas é possível.

E eu vejo cotidianamente, mulheres lindas se sentindo um lixo por causa de uns machos que sequer tomam banho direito. Quando foi que ensinaram pra gente que precisamos nos diminuir pra agradar um homem ou qualquer pessoa? Quando foi que nos ensinaram que o amor tem que doer?

Nós precisamos parar de nos contentar com qualquer coisa e estendo esse pensamento também para as lésbicas, bi e pansexuais que se relacionam com mulheres abusivas. Sim, existe relacionamento abusivo também entre casais homoafetivos e, muitas vezes, justamente porque uma delas quer assumir esse papel de dominação masculino.

Se a gente começa a olhar para si e a priorizar a saúde mental, é possível romper com esse círculo vicioso de confundir carência com amor e só aceitar alguém que te respeite como a mulher foda que você é.

Photo by Nick Fewings on Unsplash

Dia Nobre é escritora e PHD em História. Autora do livro Todos os meus Humores (Penalux, 2020) https://dianobre.com

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