A rivalidade feminina como entretenimento no BBB 21

Desde que comecei a estudar sobre o feminismo lendo essas mulheres maravilhosas que falaram sobre: bell hooks, Audre Lorde, Silvia Federici, Simone de Beauvoir, Virginia Wolf e tantas outras sobre as quais me apoio, entendi que a sustentação do patriarcado se dá através de uma estratégia de controle muito básica: a construção e a manutenção da rivalidade feminina.

Como galos de rinha, mulheres são estimuladas desde muito pequenas a disputar entre si: por homens, por corpos perfeitos, por modelos irreais de beleza. O mito de que as mulheres são falsas ou invejosas, que não conseguem manter uma amizade verdadeira, que são interesseiras foi enraizado na nossa educação primeira: aquela que nos diz o que é ser mulher.

Fomos ensinadas a achar que não devemos nos unir, mas é justamente a falta de união entre as mulheres que sustenta o patriarcado. Enquanto isso, os homens são fraternais e defendem uns aos outros a todo custo. bell hooks já afirma que: “A ligação entre homens era um aspecto aceito e afirmado na cultura patriarcal. […] A ligação entre mulheres não era possível dentro do patriarcado; era um ato de traição.

Tomando o caso Sarah x Juliette da atual edição do BBB, a gente percebe essa socialização nociva bem de perto.

A narrativa apresentada sobre Sarah, especialmente, desde o início do programa a colocou nesse lugar de “amiga dos garotos” que muitas mulheres pensam que podem ocupar. Atuando nesse papel, ela tomou Juliette como sua antagonista, por um motivo pouco claro: ciúmes de Rodolffo? disputa pela atenção do Gil? competição pelo carisma e talento de Juliette? Não dá pra saber exatamente o que disparou a rivalidade entre as Sisters, o que importa pensar é como isso prejudicou a ambas. Quantas vezes, não vimos essa mesma narrativa em filmes, novelas, romances?

A rivalidade feminina é estimulada, principalmente, pela comparação: “a menina mais bonita”, “a mais legal”, “a que tem as melhores roupas”, etc.. Ocupadas com essas questões fúteis que só reforçam o controle do patriarcado sobre os nossos corpos, não nos solidarizamos umas com as outras.

Outro conceito importante que atravessa essa questão é a ideia de Sororidade, que seria a união e aliança entre mulheres, baseada na empatia e companheirismo. No entanto, esse conceito é, muitas vezes, utilizado de forma equivocada.

É importante levarmos em consideração que as mulheres não são um grupo social homogêneo, que somos atravessadas por questões de classe, raça e sexualidade. Mulheres brancas não enfrentam os mesmo problemas que mulheres negras ou racializadas; mulheres ricas estão longe de entender a dinâmica da vida de mulheres pobres; mulheres heterossexuais não sofrem com a lesbofobia, mas todas temos algo em comum: fomos programadas para nos odiar.

A sororidade entra aí como uma tentativa de nos colocarmos no lugar umas das outras e percebermos que essas disputas só fortalecem o machismo e o patriarcado. Para tornar o mundo um lugar melhor, a primeira coisa que devemos fazer é apostar nas conexões entre mulheres, e nos unirmos e defendermos umas às outras. Só assim, as narrativas que se apoiam na rivalidade feminina irão ruir.

Dia Nobre é escritora e PHD em História. Autora do livro Todos os meus Humores (Penalux, 2020) https://dianobre.com

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