A Gambiarra como Manifesto e Arte

Mês passado fiz a oficina de leitura da Mulheres que escrevem, mediada pela Estela Rosa e pela Taís Bravo e fiquei com uma pulga atrás da orelha, uma comichão no centro da cabeça sobre algo que foi discutido no dia destinado à poesia.

Como historiadora, aprendi desde cedo que toda escrita é costura. A gente pega os retalhos das referências, das influências, daquilo que nos inspira e me veio a ideia absurda que escrever pode ser uma forma de gambiarra.

Essa comichão encontrou alívio essa semana em dois textos estranhos que me caíram às mãos. O primeiro, um ensaio da Taís Bravo publicado na Totem-Pagu (O tesão como estratégia de guerra) sobre a poesia de Natasha Félix: “ter uma ideia/ meu deus uma ideia. […] Saquear todo tipo de texto: verso, propaganda, teoria, música, Wikipédia, manuais. Esquecer as influências. […] Vislumbrar em qualquer material uma outra forma de uso. Ter uma ideia. Tomar para si. Começar o corte. Colocar em teste. Repetir, mais uma vez.”

O segundo, uma entrevista concedida pela Tatiana Salem Levy ao Ricardo Viel no livro Sobre Ficção: “RV- Achei engraçado uma coisa que li numa entrevista sua. Isso de roubar frases de outros autores e colocar nos seus livros… TSL-Hoje mesmo roubei uma frase para esse romance que estou terminando. Era uma coisa que eu pensava usar como epígrafe do livro mas depois achei que não funcionava. Então, peguei a frase e coloquei lá no meio do texto. RV-E de quem é a frase? TSL-Não vou falar. (risos)”.

Que interessante, eu pensei, esses “roubos literários”, esse saque de ideias e palavras que transformam uma coisa em outra, tomando emprestado palavras alheias, montando quebra-cabeças com peças de outros jogos, criando gambiarras.

Gostei disso porque mostra que ineditismo não existe e o que muda mesmo é a forma com a qual a gente fala e, talvez, daí venha a tal da originalidade: quando a gente descobre COMO quer comunicar. Acho que, no final, isso é a tal da VOZ NARRATIVA. A forma de dizer através de gambiarras. A Gambiarra como Manifesto e Arte.

(Atenção: não confundir a discussão com a ideia de Plágio que “é o ato de assinar, apresentar e publicar uma obra intelectual que pertença a outra pessoa”)

Photo by Florencia Viadana on Unsplash

Dia Nobre é escritora e PHD em História. Autora do livro Todos os meus Humores (Penalux, 2020) https://dianobre.com

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