É muito triste essa condição das mulheres que não gozam

Hoje eu vou entrar na seara da Nani do ig @mulheres.subversivas e do @prazerela porque me veio uma inquietação sobre o tema esta manhã, provocada por nem sei mais o que, mas cuja resposta eu já sabia: eu nunca gozei com penetração. E aí, refinando esta inquietação, me perguntei, será que as mulheres realmente gozam com a penetração? Ou gozam, de qualquer forma, com seus homens e/ou mulheres?

Existe um mito de que sexo só é sexo se tem penetração (às vezes, mal começa e já acaba, não é mesmo?!). Esquecemos que o que muito homens gostam de chamar de preliminar, como o sexo oral, por exemplo, já é sexo. Que o ato sexual não se resume ao encaixe do pênis ou dos dedos, ou do vibrador, etc., com a vagina. E nós, mulheres, já sabemos que a estrela de tudo é, na realidade o clitóris, esse botãozinho mágico que parece pequeno por fora mas é imenso por dentro e pode proporcionar uma infinidade de prazer.

Já há algum tempo, me dei conta, de como existe um pudor no sexo que só envolve o corpo feminino: é ele que precisa estar depilado, perfumado, insípido, como uma boneca de plástico, na realidade, um buraco de plástico parecido com aquela performance artística da @bernareale chamada Rosa Púrpura .

Eu já ouvi relatos de amigas que mais pareciam contos de terror, nas quais, seus parceiros sequer se preocupavam em tomar um banho antes da relação sexual, só abriam o zíper da calça e quando acabavam, uns 30 segundos depois, bom, aí acabava o sexo.

Mas às mulheres, é exigido um ritual de preparação digno de um casamento real, com a tortura da depilação em cera, o uso de sabonetes e desodorantes íntimos que destroem o ph vaginal, com as cirurgias de “rejuvenescimento vaginal” ou “labioplastia coméstica”. Inclusive, sobre estas últimas, pasmem, segundo informações do @qgfeminista, em 2017, houveram 28.300 procedimentos deste tipo, sendo que mais da metade das mulheres não tinham sequer 18 anos de idade. Tudo isso para 30 segundos de sabe-se-lá-o-que.

E no final, qual o objetivo? Atender ao mercado da beleza? Atender aos desejos dos homens que não gostam de mulheres, mas de crianças (sem pelo, sem cheiro, sem sabor, “apertadas”).

Ao lado disso, está, outro elemento que é o tabu que se coloca sobre a masturbação feminina, que é demonizada, pelo menos há dois mil anos com a ascensão do cristianismo. A mulher que deseja, que se toca, que sabe onde encontrar prazer com seu corpo é vista negativamente (puta, vadia…) nesta sociedade que romantiza a pornografia e a prostituição, espaços onde as mulheres são violentadas por homens que só buscam seu próprio prazer.

É essencial que as mulheres comecem a se tocar, a se quererem, a colocar o seu prazer no jogo sexual, sem se preocupar somente em satisfazer o outro. Sexo, com amor ou sem, deve ser troca: de gestos, de fluidos, de gozo.

É importantíssimo que as mulheres conheçam sua própria anatomia, que saibam que existem bucetas de vários tipos, como flores, com muito ou pouco pêlo, com cheiro forte ou fraco, com texturas e cores que não cabem nas tabelas da @pantone, que conheçam o prazer, o orgasmo múltiplo, enfim, o sexo enquanto realização pessoal… porque, sinceramente, é triste ver mulheres que aceitam tão pouco de seus parceiros, é muito triste essa condição das mulheres que não gozam.

Photo by Charles Deluvio on Unsplash

Dia Nobre é escritora e PHD em História. Autora do livro Todos os meus Humores (Penalux, 2020) https://dianobre.com

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store