Macabea precisou morrer pra virar uma estrela.

Quantas mulheres não tiveram que morrer para serem notadas? Até existir é difícil quando se é mulher, e, eu poderia aplicar isso à vários temas, mas hoje vou falar sobre a escrita.

Comecei a minha vida de leitura/escrita muito cedo. Vindo de uma família pobre do interior do Ceará, me considero sortuda de ter encontrado quem me estimulasse a ler e escrever.

Li muito na adolescência, mas poucas mulheres. As bibliotecas sempre foram cheias de obras de homens. Os livros escritos por mulheres apareciam tímidos em poucas prateleiras. Lembro de ler com avidez as obras de Ana Cristina César, Clarice Lispector, Cecília Meireles, Agatha Christie… Li mais Anne Rice que Stephen King e o ponto aqui não é sobre o que é bom/ruim, mas sobre representatividade. …


Rebecca Solnit começa seu livro “A mãe de todas as perguntas” com um ensaio sobre o silêncio. A história do silêncio, ela diz, está ligada diretamente à história das mulheres. Quando estudamos História, essa com h maiúsculo, não é difícil perceber o apagamento das mulheres, a raridade com que elas aparecem e que, quando aparecem é sempre em uma alusão ou comparação a um comportamento típico masculino.

Como ressalta Virginia Woolf, em “Um teto todo seu”, parece que os homens nascem com essa capacidade de serem melhores do que as mulheres em tudo. Na cozinha, nós somos cozinheiras, eles são chef; na moda, nós somos costureiras, eles estilistas; na escrita eles são universais, nós escrevemos “literatura feminina” como se isso fosse algo menor ou mais débil. …


Há seis semanas venho propondo desafios de escrita neste espaço virtual, que nada mais são do que exercícios pra colocar em prática o ato de escrever e de ser lida.
Acredito que parte importante do processo de nos reconhecermos como autoras, é expor os textos aos olhares dos outros.

Minha iniciativa não é inédita, ao contrário, me inspirei em muitas escritoras que propõem exercícios e que estão sempre falando sobre a arte que é escrever.

Além de toda a coisa poética de escrever pra me conhecer e me curar, entendo a escrita também no sentido prático de poder comunicar uma ideia. Ainda que o leitor seja livre pra interpretar o que ele quiser do que está posto, é claro que todo texto tem uma intenção, um propósito: ele fala para alguém e fala sobre algo. …


Eu tenho muitas amigas heterossexuais que se destacam por seu trabalho, por sua inteligência, por sua capacidade de pensar o mundo e de fazer coisas para melhorá-lo, e, vejo que muitas delas, a maioria, estão acompanhadas de homens que não lhe dão o menor valor, que as exploram sexual e financeiramente, que não as respeitam intelectualmente.

Me pergunto, o que fazem essas mulheres maravilhosas continuarem nesses relacionamentos ou reforçarem essa ideia?

Uma amiga minha, teve depressão e procurou um terapeuta pra iniciar seu processo de análise e, adivinhem, qual foi a primeira coisa que o psicólogo perguntou: “por que ela não conseguia manter relacionamentos?” …


Toda mulher já ouviu que era insuficiente e isso causou uma marca tão profunda que é muito difícil acreditar quando alguém diz o contrário.

Eu nunca gostei de receber elogios. Eu sentia que não merecia, tinha muita insegurança e síndrome de impostora envolvida. Principalmente, no ambiente acadêmico, eu sentia que havia muitos “falsos elogios”. Sabe a pessoa que te dá um beijo no rosto e te apunhala pelas costas? Pois é. Mentiras sinceras não me interessam.

Eu nunca gostei de receber elogios porque fui ensinada que não era boa o bastante. Consequentemente, nunca gostei das coisas que fazia. Era extremamente preciosista. …


Já pensou em parar no meio de uma transa para cortar uma camisinha ou pegar um rolo de plástico filme? Se você já ouviu algumas destas sugestões, então, você deve ser uma mulher que transa com mulheres.

Se o prazer e a saúde sexual das mulheres são invisibilizados, no caso das mulheres lésbicas, isso se agrava, mas pouco se fala sobre.

Mulheres que se relacionam com mulheres, tendem a ser vistas pela sociedade heteronormativa como destituídas de sexualidade ou, pior ainda, como reprodutoras de uma performance masculina.

Lembro que quando falei pela primeira vez para um ginecologista sobre minha orientação sexual, ele disse, em tom de deboche, que sexo entre mulheres era só uma “brincadeirinha”. Pra ele, sexo “de verdade” só com homens. …


Eu costumava pensar que já tinha tudo o que eu podia ter, mas sempre havia aquela sensação de que faltava algo. A falta, diz minha terapeuta, faz parte do sujeito. Ela sempre vai estar lá.

Um dia eu notei que eu usava essa busca constante por algo para não parar e olhar dentro de mim mesma. Eu sempre buscava fora.

Me dei conta de que sempre senti muito medo de tudo, embora eu tenha essa marca de persistência, talvez, porque o medo e a coragem sejam opostos complementares e andem sempre juntos. Sempre que eu parava, me sentia afundando como a Lara Croft em uma areia movediça. …


Muita gente me pergunta como funciona o meu processo de escrita, então resolvi trazer um pouquinho da minha rotina pra vocês.

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Não tenho hora certa pra escrever, mas uma coisa é certa, raramente pela manhã. Quando acordo meu corpo demora muito pra “ligar”, sou bem lerda. Geralmente começo a trabalhar no início da tarde e vou até quando dá.

Nunca estabeleci metas de escrita, mas tenho objetivos, por isso, tento escrever um pouco todos os dias. Vou trazer algumas coisas que funcionam bem pra mim:

- Fazer exercícios de escrita. Um bem comum é buscar alguma palavra estranha no dicionário e partir dela desenvolver um texto, como um verbete poético. Eu adoro palavras “difíceis”, pouco usadas ou com significados complexos. Outro dia, conheci a palavra “resfeber”, do sueco, significa uma ânsia por uma viagem e acabei fazendo um texto sobre memória a partir dela. …


Quantos livros escritos por mulheres você tem na sua estante? Quantas autoras publicadas você conhece? Quantas escritoras?

Eu cresci com a literatura. Desde muito pequena, fui estimulada a ler e tive contato com bibliotecas e livros de todos os tipos. No início de 2019 me perguntei quando livros escritos por mulheres eu tinha na minha estante e descobri que possuía apenas 18 livros. Hoje já tenho 10 vezes mais e não quero parar por aí.

Precisamos conhecer a literatura feminina. Precisamos ouvir o que as mulheres têm a dizer. Não que eu tenha deixado de gostar de alguns autores homens, mas já gastei trinta anos da minha vida lendo eles. …


Eu sempre trabalhei em casa porque fui estudante metade da minha vida, então, isso nunca foi um problema. Quando eu estou bem, consigo me organizar.

Mesmo assim, quando a quarentena começou eu me abalei muito. Não lido bem com quebra de rotina e apesar de ser bem caseira, me deu nervoso a “proibição” de sair. Sou aquariana, gente, não lido bem com regras. No entanto, sou grupo de risco e tentei respeitar ao máximo o isolamento social.

No final de maio eu estava desesperada, minha produção tinha caído quase 100%. Foi um mês bem apático. A única coisa que eu fazia, era lavar a louça, mesmo assim, cheguei a acumular uns dois dias de louça suja, tamanha a minha impotência. Percebi que o problema não era em si, a necessidade de sair. …

About

Dia Nobre

Dia Nobre é escritora e PHD em História. Autora do livro Todos os meus Humores (Penalux, 2020) https://dianobre.com

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